terça-feira, 2 de novembro de 2010

Flores em ilha na lua cheia


Quando as lágrimas dela rolaram rápidas uma após a outra, sem interrupção de caminho, em todos os cantos de cada olho, ele perguntou se devia parar. Parar, ela pensou, parar o que? Parar os mundos que já estão parados? Parar de existir: exatamente assim como já estamos agora? Parar de sentir alheamentos para sentir apenas isso que nesse momento sinto? E depois do espasmo de tempo do momento ela entendeu o que é que ele perguntava, movido pelas lágrimas dela, se deveria parar de. E ela então, no meio do sorriso molhado do choro disse que não, disse que não mansamente e quase de maneira imperceptível com a cabeça, grudando no brilho dos olhos dele o brilho dos seus olhos chorantes. Antes dessa pergunta ele perguntara outra pergunta, ao ver que os olhos dela choravam, ele perguntou ao ver que os olhos dela choravam ele perguntou  –tudo bem? O abdômen dela respondeu que sim com solavancos de prazer e o pensamento dela respondeu que sim, que sim, que sim, que sim, que muito sim. Que tudo bem, e que agora sim podia dizer que tudo bem porque finalmente descobrira o que pode significar TUDO. Tudo era agora. Aquele momento em que chorava de beleza, chorava felicidade. Chorava num instante em que nunca antes chorara? No filigrana de tempo, que em sua impressão era despido de tempo assim como eles de roupas, no momento suspenso do gozo, que parecia eterno, ela chorava. Não era possível deixar de sentir lua nas peles e salivas de dentro e de fora de cada um.
Foram doces nessa noite e nessa manhã. E foram salgados, ácidos, alcoólicos, adstringentes, aquosos, macios, densos, agridoces, suculentos, cremosos, elásticos, massudos, líquidos e eles.
Dele não sabe ela o que pode ter sido, nem mesmo como imaginar se poderia imaginar. Sabe que se um dia ele precise saber do que ela sentiu terá que intuir ou pressentir porque ela nunca, nunca, poderá contar a ele em palavras. As flores que, de certo, voaram pelo ar naquelas horas certo que também não irão repetir a história a ninguém, nem o perfume que teve essa noite e essa manhã. O sol que desexplodiu-se neles no infinito do gozo que parece eterno a ela, também não contará nada a ninguém por prudência e falta de verve.
Às vezes ela sorri e oferece-lhe como que em prece, o que ele sem saber lhe permite entender de conhecimento. Sem isso dele, era difícil saber de como desmanchar-se para fundir-se. Sem isso dele era difícil para ela saber como encontrar todos os tempos em um presente que se evapora ou não e pouco importa o que nem como. Sem nele estar-se ela jamais teria sabido como são as outras luas que pairam sobre as cabeças que desaparecem da dualidade.
        Que pouco entendia de variações de vida, era sabido mas, intuiu depois de algum tempo em algo que parecia ser uma outra coisa. Outras coisas que, pensou ela, viriam de muito longe e de muito distante (e vem de novo a sua mente a idéia dos três tempos unos). A primeira de todas as vezes em que estiveram-se já foi assim de estalo sem pestanejo. Como se o conhecimento viesse de alhures outroras desdatadas.  Olharam-se e estiveram-se. Entre uma coisa e outra, olhos, bocas e peles de dentro e de fora. Um dia ele lhe perguntou se estava ocupada e ela respondeu que sim: estou ocupada com você há milênios, ela disse, e depois ficou pensando muito sobre de onde poderiam ter brotado aqueles enfins. Elas, as palavras tinham falado com segurança, sinceridade e direção. Seriam verdadeiras.
        Verdadeira também a sensação livre. Não vinha com as cascatas de felicidade que lavaram sua mente e seu corpo desde o dia de choro, nenhuma prisão de posse. Vinha um vento livre de despossuído que apontava ainda de novo para todos aqueles tempos contidos num único que ela não ousaria nominar. Tampouco interessava saber se eles pertenciam-se. É que pertenciam-se sim, os dois, de um jeito a poucos permitido saber como. Parecia mais lindo dizer estavam-se. É. Ás vezes estavam-se através deste deboche na compreensão do tempo. Despronunciado de palavras, no aceitamento desse tempo transgressor, eles estavam-se numas eras que alguns chamariam de sempre.  Transgressores. Transgressores de tempos e espaços.  Acontecia mesmo de ficarem além de década sem se estarem mas, desmaterializado o estar, o pertencimento aparecia igual, para ela. Para ele, ela não sabia se o saber era desse que correntemente fazem uso. Para ele ela estava, disso sabia sim, despossuída e toda, toda. Mas não apenas assim, estava em mais que para apenas isso. Tem nomes no comum das gentes esses sentires, um dia ela pensou. Dizem paixão, dizem amor, dizem apego, pensou ela. Para mim nada disso diz, pensou, não sei como dizer e sei com todo o infinito lúcido que até aqui se pode olhar, que não é necessário dizer nomes disso. Isso ela sutil sentindo. Eram doces, amargos, densos, suaves, fortes, frágeis, ligeiros, demorados, ácidos, agridoces, próximos, distantes, lindos, eles. Eram eles. Eram o tudo-nada. E pareciam saber disso quando eram-se. Eventualmente eram-se. Eram-se numa outra sabedoria. 

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